Sustentabilidade

Por que o lixo eletrônico é um problema ambiental e social

Alexandre Uglar

Alexandre Uglar

Por que o lixo eletrônico é um problema ambiental e social

Você sabe aquela pilha de celulares antigos na sua gaveta? E aquele notebook que “um dia você conserta”? Junte isso aos milhões de geladeiras, TVs e carregadores descartados por aí, e você tem um dos maiores e mais valiosos, problemas ambientais do nosso tempo.

Mas calma: antes que você pense que é só mais um texto para se sentir culpado, eu vou te mostrar por que essa crise é também uma enorme oportunidade perdida. E, o mais importante, como você tem um papel fundamental para virar esse jogo.

O Grande Paradoxo (Valor vs. Veneno)

Vamos direto aos números do Global E-waste Monitor 2024, que escancaram o tamanho do problema:

  • Em 2022, geramos 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico no mundo. São, em média, 7,8 kg por pessoa no planeta.
  • Desse montante, apenas 22,3% foi coletado e reciclado da forma correta. O resto? Foi parar em aterros, mercados informais ou contrabandiado em contêineres ilegais.
  • A parte mais absurda, dentro desse “lixo” estava escondido cerca de US$ 91 bilhões em metais. Só de ouro, eram quase US$ 15 bilhões.

Pense bem: estamos jogando fora um tesouro e, ao mesmo tempo, espalhando um veneno. Porque dentro desses equipamentos também há chumbo, mercúrio, cádmio e uma série de produtos químicos que, quando descartados de forma errada, contaminam solo, água e ar.

Esse é o maior paradoxo da nossa era digital: temos uma mina urbana valiosíssima, mas a tratamos como se fosse lixo comum.

Quando o Problema Tem Rosto

Esse problema não é abstrato. Ele tem endereço e tem rosto. Em lugares como Agbogbloshie, em Gana, assim como em diversas outras regiões de vulnerabilidade econômica ao redor do mundo, montanhas de monitores, CPUs e cabos vindos de países ricos são desmontados a marteladas e queimados a céu aberto para extrair alguns gramas de cobre.

Quem faz esse trabalho? Pessoas. Muitas vezes, crianças. Sem luvas, sem máscaras, sem nenhuma proteção. A consequência é um rastro de doenças: problemas respiratórios graves, danos neurológicos, alto risco de câncer. O lucro rápido dessa reciclagem selvagem fica com intermediários. A conta da saúde e da descontaminação ambiental, fica com a população mais pobre e com os governos, ou seja, com todos nós.

Enquanto isso, a reciclagem formal, que poderia gerar empregos dignos e recuperar os metais com segurança, não consegue competir com esse mercado que opera na ilegalidade.

O Brasil No Meio Desse Caos

E aqui, como ficamos? O Brasil é um espelho perfeito desse desequilíbrio global. Geramos cerca de 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano. E para onde vai tudo isso?

Apenas 3% a 4% seguem para a reciclagem formal. O resto desaparece na informalidade: vai para ferros-velhos clandestinos, é desmontado de forma perigosa ou simplesmente jogado em aterros comuns, onde os metais pesados vazam e contaminam o solo por décadas.

Isso significa que toneladas de cobre, ouro, alumínio e prata, recursos finitos e caros, estão sendo perdidos no nosso próprio quintal. E pior: estão causando danos silenciosos à saúde de pessoas e ao meio ambiente na sua cidade, no seu bairro.

O Problema Tem Solução

Depois de tudo isso, pode parecer que a situação é sem saída. Mas não é.

Na verdade, a solução é clara, e ela começa em um lugar que você conhece muito bem: a sua casa.

Porque todo esse circuito problemático do descarte errado ao mercado ilegal só existe enquanto a gente, consumidor, continuarmos tratando celular quebrado como “tranqueira” a ser jogada fora.

A mudança de chave é esta: seu lixo eletrônico não é lixo. É um recurso perigoso e valioso que precisa de um destino final especializado.

Seu Poder Está na Sua Gaveta

Quando você pega aquele equipamento parado e o leva a um ponto de coleta sério e certificado da e-Renova, você não está apenas “se livrando de um traste”. Você está tomando uma atitude poderosa que:

  • Desarma uma bomba tóxica, evitando contaminação ambiental.
  • Alimenta a economia circular, devolvendo ouro, cobre, alumínio e plástico para a indústria, reduzindo a mineração destrutiva.
  • Gera empregos formais em empresas de reciclagem que trabalham com segurança e tecnologia.
  • Protege seus dados pessoais (de celulares, notebooks, HDs) contra vazamento na informalidade.
  • Envia um recado forte para o mercado e para os governos de que a população exige responsabilidade.

Você deixa de ser um espectador passivo do problema e vira parte ativa da solução. É um gesto simples com um impacto que ecoa em cadeia, da sua rua até o outro lado do mundo.

Fechar o Ciclo É uma Escolha

O lixo eletrônico é o retrato mais claro dos nossos tempos, consumo acelerado e consequências que alguém sempre paga. Mas também é uma das maiores oportunidades que temos para praticar a economia circular de verdade. Não se trata de parar de usar tecnologia. Trata-se de assumir a responsabilidade pelo ciclo completo daquilo que consumimos.

A mudança começa quando a gente decide dar um fim digno para o começo de tudo. E isso está ao alcance das suas mãos.

Que tal começar hoje? Dá uma olhada naquela gaveta, naquele armário do escritório, naquela caixa no fundo do guarda-roupa. Separe a pilha do “precisa de um destino certo”. O planeta e o futuro agradecem. E você vai sentir a satisfação de saber que fez muito mais do que só limpar um espaço. Você ajudou a construir um ciclo mais inteligente para todo mundo.

Referências

  • FORTI, V.; BALDÉ, C. P.; KUEHR, R.; BEL, G.. The Global E-waste Monitor 2024. Bonn, Genebra e Rotterdam: Universidade das Nações Unidas (UNU), União Internacional de Telecomunicações (UIT) e Instituto para Formação e Pesquisa das Nações Unidas (UNITAR), 2024. Disponível em: https://globalewaste.org/.
  • INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION (ILO).. The global impact of e-waste: Addressing the challenge. Genebra: ILO, 2019. Disponível em: https://www.ilo.org/global/topics/green-jobs/publications/WCMS_732214/lang—en/index.htm.
  • INTERPOL.. Strategic Analysis Report – Illegal Waste Shipments. Lyon: INTERPOL, 2021.
  • BBC NEWS.. The world’s largest e-waste dump – Agbogbloshie, Ghana. Londres: British Broadcasting Corporation, 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/news/av/world-africa-51628843.
  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RECICLAGEM DE ELETROELETRÔNICOS E ELETRODOMÉSTICOS (ABREE).. Panorama dos Resíduos Eletroeletrônicos no Brasil – Relatório 2023. São Paulo: ABREE, 2023. Disponível em: https://abree.org.br/panorama/.
  • SOUZA, R. G.; CLÍMACO, J. C. N.; D’AGOSTO, M. A.. Logística Reversa de Equipamentos Eletroeletrônicos no Brasil: Uma Análise da Correlação entre Infraestrutura de Reciclagem e População. In: Anais do XX Encontro Nacional de Pesquisa em Ciências Ambientais, 2022, São Paulo.
  • UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME (UNODC).. Waste Trafficking – The Cost of Crime. Viena: UNODC, 2023. Disponível em: https://www.unodc.org/.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO).. Children and digital dumpsites: e-waste exposure and child health. Genebra: WHO, 2021. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240023901.
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Alexandre Uglar

Sobre Alexandre Uglar

Sócio-fundador da e-Renova, economista e desenvolvedor full stack. Nossa motivação é tornar realidade o discurso sustentável.